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Tuesday, December 28, 2004 |
Apetece-me escrever... Porque será que o silêncio me pesa nas mãos? Quero entregar-me, enganar-me, amar-te... quero confiar. Tenho medo. A solidão grita mais alto que a própria voz e eu agarro-me a teus braços, como se nada mais fosse que uma mentira.
Estou cansada... dói-me o peito de nele levar a tua sede e o meu sentir. Ouves-me...?? Será que me vês...? Eu estou aqui também, estou contigo, ao pé de ti.
Luz amarelada, como que a apodrecer no escuro, uma cama onde me deito, onde me desfaço em lençóis sujos. É de manhã... estou cega de ver tanto de tudo no vazio... Chego mais longe, onde todos são mudos e jogam ao sério.
Uma gargalhada, corta e faz renascer o mundo... todos julgam, alguns condenam, uma pena de morte... Suicidou-se? Batem à porta, pedem esmola... levem tudo...!! Que resta aqui? Corpos encarcerados, pedaços de ti em mim...?? O fogo pode queimar, mas arde mais uma ferida que não se perdoou.
Fumei um cigarro... depois fumei outro. Soprei a cinza e vi-a espalhar-se pela mesa e pelo chão, e pensei no quão cinzento pode ser o mais belo arco-íris quando o caminho fica para trás e pensamos que chegámos ao fim.
Não... o fim está sempre lá, no seu lugar. No final de qualquer coisa, que no instante a seguir, está a ser recomeçada, quem sabe na busca de alguma noite mal acabada:
- "Laura trazes-me um copo de água..?" - Nada mais simples de se dizer enquanto eu escondia as lágrimas...
-"Deixa-me só acabar de fumar..."
28 Dezembro, 3:48 h ... Raquel Lacerda
Posted at 17:53 by me_lus_ine
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Onde foste? Estou deitada no chão do quarto a pintar o tecto com pensamentos. Os meus cabelos negros ficam bem no vermelho do chão, não ficam? A campainha toca, não espero ninguém, só a ti, e tu, tu… bem que querias perder as tuas chaves todos os dias só para não voltar para casa…
Agarro-me ao imaginário, que como se fosse um candeeiro malabarista, se pendura do tecto, e quase, mas só quase, me roça na barriga. E lembro-me de nós, o “nós” antes de sermos os dois. O “nós”, quando ainda era o “eu” e “tu” percebes? Saudades, não… arrependimento. Preferia ter-te todos os dias, do que ter os teus beijos, voz e memória. Antes ficavas calado, ansiavas conhecer-me. Agora pensas que sabes demais, quando estou pura e simplesmente a fazer-me de previsível… gosto de ti entendes? Não me quero aborrecer contigo. Podes gritar.
Chaves na fechadura, aí vens… é cedo… Vou ter contigo à janela da cozinha, tiro-te o casaco e olho-te, precisavas de cortar o cabelo, mas prefiro dizer que ele assim te fica bem. Ao que tu me respondes … “Achas? Estou farto dele, precisa de um corte…”
Bolas. Parece que divergimos sempre, desde o mais ínfimo pormenor, até onde mais deveríamos concordar … Não sei onde foste ainda… nem sei o que faço aqui.
29 Dezembro, 2.07 h … Raquel Lacerda
Posted at 18:10 by me_lus_ine
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Confissões de um arrependido
Durante muito tempo acreditei no perdão. Tenho na memória passos dados em falso e lugares longínquos, que ainda hoje habitam o meu imaginário.
Perdi horas e caminhos, sonhei manhãs e praias e esqueci-me demasiado devagar, para o tempo que nos resta a todos, do passado sem retorno que fez tantas vezes estremecer o silêncio.
Acreditei no sacrifício da alma e do nome, sem nunca sequer me interrogar por que é que um dia solitário pôde caber numa vida inteira. Hoje arrependo-me, e o arrependimento mata, sim, mata um dia de cada vez, quando no final de cada um deles sabemos que ainda teremos que morrer durante muito tempo.
Já lhe chamaram amor, este existir poético que acompanha instante a instante o regresso do medo e da saudade…
Mas naquela tarde abafada, tão cheia de um calor vindo de um coração pequeno de mais para se conseguir aconchegar nas mãos, naquela tarde pude compreender que nunca mudamos ou aprendemos, apenas existimos; acima de um qualquer tempo esquecido ou espaço vazio.
Posted at 18:19 by me_lus_ine
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Já me disseste que sim tantas vezes. A confiança perde-se de tempos a tempos. Ser-se frágil no cair da noite, mas agarro com destreza o amanhã possível. Acaba por ser assim. Eu confio…
Ser nobre por ser igual às palavras que esvoaçam entre os meus cabelos. Ouvi-as tantas vezes. Ser igual por não existir o diferente. Por ser assim. Mas eu confio.
Não me lembro de perder tempo algum. Nunca foi meu, o tempo que finjo soltar durante os intervalos em que me esqueço de mim. Esqueço-me das minhas mãos perdidas num qualquer colo frio e distante. Mas eu confio.
Este lugar sempre será o mesmo. Rodopia constantemente à minha volta, a paisagem cede e dá de si. Eu escondo-me e procuro por ti, a luz ofusca-me, e eu encontro-te por aí. É sempre assim. Mas eu ainda confio em nós.
Posted at 18:20 by me_lus_ine
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Perco-me no tempo. No tempo sozinho e sem relógio. Perco-me por me ter encontrado um dia, nua, ali, no meio de uma multidão qualquer, que estava cega e que também não me ouviu. E é assim o tempo também, cego demais por não sentir o cinzento de ontem, e surdo por não escrever palavra alguma. E o futuro tão cheio de mágoa arrasta cordas e correntes, e o amanhã já pesa diante de tantos olhares cansados.
Dou-te as minhas mãos; repito-o muitas vezes? Dou-te as minhas mãos pequenas e estreitinhas, agarra-as ou então prende-as com fortes amarras, mas não as largues ou soltes nunca. São o demónio do corpo e precisam de um lugar onde ficar; como tu já ficaste no meu colo. No colo do meu coração, que se enche de um calor arrepiante ao viver as tuas cores. Coração que queima promessas e perdões, mas que perdoa sempre… Coração que se torna orgulhoso enquanto se gritam imagens, mas que também te pede perdão. Sempre.
Fica aqui comigo. Neste fim de mundo, neste sem lugar inabitável, mas onde habita a nossa leveza, onde habita a facilidade que partilhamos dia sim, dia não, ou quando podemos. É a nossa casa. Um sítio sem paredes e chão. Um sítio tão cheio de medos e por vezes até solidão, tão cheio de incerteza e tentação…
Mas o tempo voa, e acredito na sua fragilidade, fugacidade. Mas é com estas mãos que o posso fazer parar se me amares o ventre e o peito. Se sentires a minha falta e souberes quando te quero aqui; neste lugar.
Posted at 18:21 by me_lus_ine
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Parece que estou longe de ti
Parece que estou longe de ti. E que o infinito que nos separa nos pinta de negro o coração e as mãos… tenho medo, de desistir desta luta que travo, mas pela qual tenho ainda muitas esperanças. Não quero falhar mais, chega de semblantes escurecidos e de ataques furtivos… vamos dar um abraço, olhar nos olhos, sorrir e prometer coisas, mesmo que em vão. Dá-me um beijo, aperta-me e enche-me de ternura, porque assim estou muito sozinha. Não te quero magoar, não quero que tudo seja uma batalha de palavras e fotografias, memórias de um passado custoso…
Será que ainda me escutas? Estou frágil… o tempo percorre-me e não sei o que fazer, agir talvez, mas se o medo me consome como tentar? Quero-te tanto. Chega mais perto de mim.
Posted at 18:22 by me_lus_ine
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Todas as noites, antes de estar quase a adormecer, chegava. Sentava-se ou deitava-se a meu lado, ou ficava só por ali como se fosse o próprio espaço de tudo aquilo que eu olhava.
Não me dizia nada, nunca me tocou, nem sei se alguma vez me chegou a ver, mas escutava-me, eu sei que escutava!
Não precisava falar, o silêncio no escuro era o nosso elo, um silêncio pesado, mas que permeava todas as lágrimas choradas e que bafejava o ar de todos os suspiros não contidos. Parecia pesar cada vez mais.
Fez-me companhia, ninguém me alcançava durante essas horas incertas antes do sono, fez-me mesmo muita companhia, e agradeci-lhe quando muitas vezes apressou o “João Pestana” a embalar-me ao ritmo de uma vida qualquer, que à noite, parecia cada vez menos a minha.
O silêncio continuou sempre a pesar, comparava-o, por vezes, ao vapor de água. Quente, húmido e turvo. Turvo, porque no meio de todas as partículas flutuantes, eu esperava um espaço vazio para poder localizar a nascente daquelas águas que se evaporavam, que se colavam à minha pele, à minha alma e que me faziam pensar quão pesado era aquele meu, nosso, silêncio.
Um dia destes acordei mais viva, talvez menos morta, mas a verdade é que algo pulsava dentro de mim e esperava a qualquer momento uma explosão de contentamento.
Na noite anterior decidira acreditar em mim, e se quem me fazia sempre companhia não me podia ver ou tocar, se quem me fazia companhia apenas comunicava através de um silêncio suado e não deixava fluir por esses momentos a minha vontade de ser; eu podia, sozinha ou não, fazê-lo.
Nesse dia deitei-me na areia da praia, uma onda ao de leve veio chamar-me. A água refrescou-me a alma, senti pela primeira vez o meu espírito...era eu aquela...
Nessa noite, quando me deitei, sentou-se de novo a meu lado e desta vez abraçou-me.
A pouco e pouco fui descobrindo que quem ali ficava comigo no final de mais um dia era o meu próprio reflexo, a minha vida, o meu Deus, e foi assim que descobri que viver, é precisamente procurar em todos os momentos algo que não nos faça querer morrer...
Posted at 18:23 by me_lus_ine
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“Estamos todos loucos. Procuramos no significado das palavras gastas um novo sentido, uma nova forma de as dizer, escrever, entender, uma nova forma de pensar.
Escolhemos a loucura talvez para multiplicar os caminhos à nossa volta e, colorir o cinzento da nossa vida.
Nem eu sei o que digo, talvez também tenha enlouquecido, porque procuro o que não quero encontrar e vou aprendendo sem ninguém me ensinar. Talvez este seja o meu estilo. Mas estilo de quê? De vida? Ou talvez de morte, não sei...Mas sei que por vezes é necessário inserir o que somos num estilo, como que contornando o presente e fazendo um esboço do futuro.
Precisamos disso, para nos apoiarmos, para a responsabilidade da existência diária não pesar tanto, para não nos sentirmos a mais e a vida ser excessiva.
Não me peçam é para definir o meu estilo, talvez nem seja meu agora que penso nisso, se calhar ainda não o tenho. Por isso se calhar ainda não sei viver, e a presença desta loucura, que por vezes me ajuda a curar, seja resultado da ausência de um estilo, ou do estilo. Ou então é precisamente o contrário. Posso também ter-me prendido demasiado a um estilo e ter estes momentos de insanidade, quando de repente me esqueço de me curar a mim mesma.”
- Sabes? Nem sequer lhe pude responder quando ela me disse tudo isto, olhando-me nos olhos e não me deixando espaço para respirar. Talvez por isso ela já não esteja entre nós, por ter antecipado a morte, por durante pequenos momentos não ter saído da caverna, e por agora ser tarde demais para renascer.
Posted at 18:23 by me_lus_ine
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A noite apresentou-se abafada e silenciosa. A lua espreitava a janela aberta, ia criando formas imaginárias que davam vida à parede morta daquele quarto.
Ele, sentado na cama, ansiava pela aurora, por um novo dia, uma nova luz. Do seu lado esquerdo um candeeiro apagado e um livro esquecido, do direito, um pequeno relógio perdido no tempo e uma moldura vazia. Sim, era uma moldura vazia, a fotografia dos dois era pertencente ao passado, e como para ele o passado é sempre morto e não existe, a moldura estava definitivamente vazia, mesmo quando aquela imagem o assaltava e ele se perdia numa lembrança passada, morta, vazia...talvez assim também fosse ele morrendo...
E de novo a imagem o assaltou, e o vazio cravou-se também no seu peito, preenchendo o nada de coisa nenhuma. E de novo a sensação de que a noite não se cala, mas que afinal é só o silêncio a escutá-lo.
Ele chora, os gritos sufocados fazem eco dentro de si, e ele quer dormir...enganar a vida com o sono, e descansar a alma de tanta dor.
Ele não dormiu. O dia seguinte não chegou, e a noite prolongou-se para o resto da vida, um quarto escuro...a lua cansou-se e foi embora, os olhos habituam-se à escuridão total.
O silêncio. O negro. A solidão. A saudade de um momento perdido. E, de repente um ponto brilhante surge aos pés da sua cama. Delírio? Alucinação?
Aproximou-se um pouco mais daquela pequena luz, agarrou-a com as duas mãos, e com estas em concha soprou-lhe devagarinho, pelo quarto todo se espalharam pontinhos luzidios, que o fizeram ver que no canto do quarto havia uma porta. Porque nunca a tinha encontrado, procurado?
Abriu-a devagarinho, e já fora do quarto ele pôde ver que a vida vai muito mais além do que uma imagem que nos pesa nos momentos em que o tempo parece parar.
Posted at 18:24 by me_lus_ine
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Era agora. O comboio partiria velozmente sem destino marcado. As suas paragens são desconhecidas, e talvez o tempo se transforme num pêndulo gigante, que, de cá para lá, e de lá para cá, me vai gastar a paciência, a vontade, a convicção e a esperança.
Soou o apito final, as portas fecharam-se, abriram-se as janelas e começaram os acenos de despedida. Lágrimas e sorrisos, promessas e perdões.
Não sei quanto tempo vou ficar fora, uma semana ou um ano, não sei. Não sei para onde vou, e talvez nem saiba de onde venho.
Olho a paisagem, verde e azul, azul e verde. O azul é sempre o mesmo, o verde vai-se mexendo no espaço e não distingo a planície, das árvores em fileiras perfeitas, se calhar são tudo arbustos, não sei bem.
Tenho sono, encosto a cabeça à janela, o sol bate-me no rosto mas não me incomoda. Adormeço. Toda a realidade deixa o meu consciente alerta, e fico atenta, vigiando o meu descanso.
Não sei quanto tempo passou. O céu está avermelhado e a brisa que entra pelo comboio já não é tão agradável.
O comboio pára, ninguém se mexe. As portas abrem-se e fecham-se num barulho irritante que faz ruído nos ouvidos.
Escurece, lá fora já não identifico coisa nenhuma. Não vejo a lua mas também não me apetece procurá-la.
Estico as pernas, os braços e endireito as costas, talvez deva levantar-me. Não, não vou perturbar o silêncio instalado aqui dentro.
Sinto-me observada. Não é do meu lado direito porque aí está a janela, mas através desta vejo o reflexo do observador. Não me movimento, ele desvia o olhar. Olha de novo, agora persistentemente. Estou incomodada, ajeito a franja. Vou tossir, não, é melhor não tossir. Ele continua a olhar para mim, será que ele lê os meus pensamentos? Será que está a olhar há muito tempo?
Vou sorrir-lhe, afinal partilhamos o mesmo espaço há várias horas. Não, é melhor não sorrir-lhe, ele é estranho, muito estranho. Tenho medo, estou nervosa. Passo horas assim.
Ele continua a ver-me através de um jogo de imagens e reflexos, e quando o quero apanhar olhos nos olhos, ele está sempre virado para outro lado.
Sinto-me sozinha, não sei onde estou, com quem estou e para onde vou. O comboio é incansável e percorreu tudo isto, como se não passasse tudo de uma viagem do trabalho para casa...
Sinto-me mesmo sozinha, tenho o corpo dormente e o tempo não me deixa descontrair a mente. Acho que penso demais, mas isto não é de agora...
Amanhece, o comboio continua no seu trote meio violento, respiro fundo...
O comboio pára... suspiro... acho que vou sair aqui.
Posted at 18:25 by me_lus_ine
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